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Assalto em Bamako

Com alguma frequência viajava para Bamako. Se bem que relativamente perto de Bissau era preciso ir, primeiro, a Dakar na Air Senegal e depois na Air Afrique fazer a viagem aérea para a capital do Mali.

Em 1985 a OMS tinha instalado um Escritório para a Sub-região da África Ocidental. Em regra, ficava uma semana a trabalhar nos principais programas comuns aos diferentes países. A promoção da saúde materna-infantil tinha, quase sempre, prioridade absoluta, como se compreende.

Em Outubro de 1987 voltei de novo a Bamako, mas, pela primeira vez, fui acompanhado pela minha Mulher. Para a convencer, antes da viagem, tinha prometido visitas demoradas aos fabricantes de tapetes tradicionais e jantares nos excelentes restaurantes típicos à beira do rio Níger. Conhecia uma belíssima esplanada de um restaurante que servia ao anoitecer as famosas coxas de rã, como prato típico. Um sabor principal. Uma experiência verdadeiramente ímpar. Usava eu como argumentos irrecusáveis.

Lá fomos os dois.

Em Bamako a opção foi, como era habitual, o Hotel Amitié.

No dia fixado para as coxas de rã decidimos ir a pé, atravessar a ponte e jantar no local propagandeado. Com especial agrado, verifiquei que a excelência do prato tinha sido comprovada. Já pelas dez da noite, de regresso ao Hotel, três homens que vinham em sentido contrário, a meio do tabuleiro da ponte, arrancaram a mala de mão de Maria João que começou subitamente a gritar. Imaginei que teria o passaporte, documentos, bilhete de avião, dinheiro, etc. Pensei que era preciso recuperar a mala como tarefa inadiável. Era uma missão essencial que teria que cumprir, julgava eu. Uma motocicleta que se aproximou parou a meu pedido e rapidamente montei atrás decidido a negociar com os ladrões a documentação que teriam levado. Mal arrancamos ouço os primeiros gritos de Maria João:
– Estou só. Não vás!
– Arrête, disse eu ao motociclista.

A seu conselho levei Maria João até ao portão da Embaixada Americana, onde já estaria em segurança, para depois retomarmos a perseguição.

Foi então que compreendi que a mala tinha apenas um pacote de lenços de papel e um conjunto de chaves em duplicado das minhas.

Rapidamente concluí que não merecia o trabalho, que não se justificava a exibição de actos espectaculares e muito menos correr riscos desnecessários. Porém, reconheço que, na ocasião, senti um estranho impulso em ter que ser destemido, isto é, a obrigação de exibir e pôr à prova a coragem que tinha que existir.

Moral da história: todos nós temos qualquer coisa de James Bond…

Francisco George
Verão, 2013