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África 1980 - Quarta Aventura

Com início súbito, a praga de grilos em Bissau era cíclica. Em Outubro, repentinamente, de um dia para o outro, os grilos apareciam por todo o lado na capital guineense. Movimentavam-se sobretudo de noite.

Eram imensos, milhares, provavelmente muitos milhões de grilos que cantavam o famoso cricri próprio dos machos ao pretenderem cortejar as fêmeas.

Logo depois do início do aparecimento dos primeiros grilos, o fenómeno aumentava nos dias seguintes com proporções gigantescas. À noite, as luzes urbanas atraíam mais e mais grilos. Então, o bem iluminado Palácio do Presidente da República trocava a cor rosa original das paredes pelo negro dos grilos. Onde havia luz, amontoavam-se, sobretudo junto e debaixo dos candeeiros.

A verdade é que entravam por todo o lado. Estavam em todo o lado. Quer dentro, quer fora de casa era obrigatório conviver com eles. À hora das refeições era habitual saltarem para a mesa. Era, também, impossível dormir sem grilos no quarto. Saltavam e cantavam a toda a hora. Um inferno nocturno. Nessa época era difícil dormir com tranquilidade.

Pela manhã, os carros rodavam nas ruas ao som do estalar dos grilos que pavimentavam os arruamentos do centro da cidade.

Ao fim de alguns dias desapareciam. 

Tudo isto era absolutamente inacreditável. Um mistério.

Naturalmente, lembrava-me do meu tempo de criança, nos anos 50, em Campo de Ourique. Minha Mãe, a caminho do Jardim da Estrela, com os filhos pela mão, costumava parar na florista da Ferreira Borges para comprar uma gaiola com grilos.

Aquelas gaiolas eram concebidas, sempre da mesma maneira, artesanal, em forma de cubo com paredes de arame e base e “telhado” de madeira avermelhada umas vezes e outras pintadas a amarelo. Em regra eram bem ornamentadas e sempre com o mesmo design típico.

Não me lembro do preço, mas o conjunto da gaiola, do grilo e da inevitável folha de alface compensava, estou certo, pela felicidade que motivava em nós. Um dia era para mim e na semana seguinte para o meu irmão gémeo. O grilo era um animal de estimação. O canto era muito apreciado.

Quem diria que, mais de 30 anos depois, em Bissau, viria a testemunhar aquele espantoso evento forçado pela Natureza e que impunha o convívio, inevitável, com tantos grilos.

Francisco George
Lisboa, Dezembro de 2012