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O Assalto ao Quartel de Beja
1917
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O Assalto ao Quartel de Beja

A madrugada de 1 de Janeiro de 1962 é inesquecível para mim. O telefone que se encontrava no escritório da nossa casa de Campo de Ourique, na divisão contígua ao meu quarto, tocou pelas 3 horas. Era o telefone do Estado que o Ministério da Saúde mandara instalar. Fenómeno raro, uma vez que quase nunca recebia chamadas nem era utilizado. Todos dormiam a essa hora.

Levantei-me e atendi: - “daqui fala Henrique Martins de Carvalho, pretendo falar com o Dr. Carlos George. É um assunto muito urgente”. Habituado a receber chamadas telefónicas dos doentes de meu Pai a qualquer hora da noite, se bem que no 660628, de início nada de anormal notei. Logo depois, ao entrar no quarto de meus pais para transmitir o recado e ao chama-lo para ir à sala, compreendi pelos seus comentários que era o ministro da saúde e assistência. Percebi que era um problema sério. Uma revolta contra Oliveira Salazar. Não mais se deitou e com o apoio de minha Mãe começou a fazer telefonemas para o Banco de São José e para os seus amigos de maior confiança.

Ao telefone, lembro-me, começava por dizer que tinha recebido instruções do Ministro para organizar equipas de assistência médica de emergência para imediatamente seguirem para Beja em ambulâncias rápidas (1). Sabia-se, apenas, que tinha havido uma revolta no quartel, com intenso tiroteio e que havia mortos e feridos para socorrer. Ignorava-se a sua verdadeira magnitude. Sabia-se, igualmente, que o antigo Hospital da Misericórdia de Beja não tinha meios para responder à situação.

Meu Pai seguiu, pouco depois, para São José para afinar as orientações com os seus Colegas. Como médico internista dos Hospitais Civis de Lisboa tinha-se dedicado, com igual paixão, à organização e administração de serviços.
Já em 1954, tinha sido nomeado para reorganizar o Hospital de Santa Marta na sequência da abertura do Hospital de Santa Maria e da transferência de professores, estudantes, médicos, enfermeiros e doentes para o novo Hospital. Era muito respeitado nestas suas “duplas” funções de médico e organizador de serviços hospitalares.

A Revolta de Beja tinha sido planeada por Humberto Delgado. Pretendia a partir daqui conseguir a sublevação de outros regimentos e unidades das Forças Armadas e fazer cair Salazar. O assalto não correu bem. O insucesso, muito provavelmente, terá tido como explicação principal a falta de comunicações, apesar de Delgado ter acompanhado o assalto a partir de Vila de Frades, aldeia a 25 quilómetros de Beja (2).

Como se sabe, durante o Assalto, o então subsecretário de Estado do Exército, tenente-coronel Jaime Filipe da Fonseca, foi morto pela GNR, por razões nunca inteiramente esclarecidas. 

Só percebi a sequência integral do que se passou naquele Primeiro de Janeiro de 1962 depois da chegada da Equipa de Emergência de São José ao Hospital da Misericórdia de Beja, muitos anos depois, quando aí exerci funções de delegado de saúde, em 1976. Foi o médico bejense José Maltês que me relatou pormenores que completaram os meus conhecimentos. Contou-me a luta que manteve com a PIDE e o apoio que recebera de meu Pai pela linha telefónica que os ligava em permanência. A questão central colocou-se, sobretudo, no plano da ética porque, por um lado, a PIDE pretendia interrogar o capitão João Varela Gomes antes da intervenção cirúrgica, visto que queriam resultados imediatos da investigação e, também, porque os agentes receavam que a operação a Varela Gomes não tivesse sucesso e, portanto, ficariam sem informações sobre a Revolta. Pretendiam saber quem chefiava, quem participara, se havia mais revoltosos, onde estavam, etc. Por outro lado, o cirurgião destacado de Lisboa, Sérgio Sabido Ferreira, afirmava que o doente morreria se não fosse anestesiado e submetido naquele momento à intervenção. Os médicos recusaram, terminantemente, a entrada da brigada da PIDE no bloco operatório do velho hospital. Opuseram-se aos interrogatórios policiais. Expulsaram os polícias.

Seguramente, a barreira à PIDE com aquela firmeza, que juntou o médico de Beja, o cirurgião chefe do Banco de São José e o director dos Hospitais Civis de Lisboa, não tinha sido prevista pela linha de comando do Regime.

O ministro Martins de Carvalho tinha incumbido a organização da resposta de emergência a uma Equipa de médicos. Médicos que bem conheciam as exigências que a Ética impõe no exercício da profissão. Princípios que não discutiram e que observaram sem hesitações.

O Assalto ao Regimento de Infantaria 3 em Beja na viragem de 1961 para 1962 tem que ser lido no contexto dos acontecimentos históricos que marcam esses anos: a fuga de Cunhal de Peniche no ano anterior, o “Santa Maria” de Henrique Galvão, a tentativa de golpe palaciano de Botelho Moniz, o desvio do avião da TAP por Palma Inácio, a Crise Académica, o Fim de Portugal em Goa e, principalmente, o início da guerra colonial “para Angola rapidamente e em força”.

A revista “Visão História” de Fevereiro de 2011 insere uma interessante entrevista a Varela Gomes, agora aos 86 anos de idade, que exalta a atitude dos seus médicos e a luta que ganharam aos agentes da PIDE em pleno Hospital de Beja. Uns a quererem salva-lo e outros a pretenderem interrogá-lo.

Lisboa, Abril de 2011
Francisco George

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(1) O Serviço de Emergência 115, precursor do INEM, ainda não tinha sido criado.
(2) José Luís Conceição Silva, destacado activista da Oposição e residente na Quinta do Almargem em Vila de Frades, terá organizado o acolhimento ao General que ficou alojado no centro da aldeia na casa dos Raminhos.