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1917
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1917

Um dia, seguramente muito perto de 1958, numa época política animada pelas candidaturas de Arlindo Vicente e Humberto Delgado, perguntei a meu Pai o que era e o que representava o comunismo. Imediatamente, como que a simplificar a resposta, explicou-me que era o regime onde todos eram iguais, sem pobres e sem ricos. Respondi-lhe, na minha ingenuidade própria da idade, que “então era bom”…

Pouco tempo depois, minha Mãe levou-me de comboio para ver um Tio que estava preso (1). Não sabia bem ao que ia. Deixamos a Estação de Caxias e subimos um caminho de atalho para o portão da prisão. Depois, juntamente com meu Irmão gémeo, lá estivemos no parlatório separados por um vidro. Só mais tarde percebi que esta ida a Caxias seria um complemento à explicação inicial a fim de percebemos que o irmão de minha Mãe não tinha cometido qualquer crime e que simplesmente lutava por aqueles ideais.

Também só mais tarde, como é natural, viria a compreender as origens e as questões associadas ao comunismo. Karl Marx e Friedrich Engels, primeiro. O Manifesto Comunista, publicado em 1848, enunciou claramente que ”A História de toda a sociedade até aqui é a história de luta de classes…opressores e oprimidos, estiveram em constante oposição uns aos outros, travaram uma luta ininterrupta, ora oculta ora aberta…”.

A Revolução Russa em Outubro de 1917 marcou a minha geração de estudante universitário, em Lisboa, nos fantásticos anos 60. Eram as imagens, repetidas inúmeras vezes em revistas (sobretudo francesas), da tomada do poder e da organização dos Sovietes. A foice e o martelo como símbolos a exaltar a aliança de trabalhadores rurais e fabris. Também, a figura inconfundível de Lenine. O exemplo da sua liderança. Em 1936 a Guerra Civil de Espanha e mais tarde, em 1939-45, a vitória dos Aliados contra Hitler e a seguir o Vietname de Ho Chi MInh. Os acontecimentos inesquecíveis da luta armada de libertação de povos, a par da conquista do Cosmos com o lançamento da Laika no Sputnik (1957) e depois com Yuri Gagarine na nave espacial Vostok (1961).

A dimensão estética da Revolução era muito especial. Tinha um imenso poder atractivo. Parecia tudo natural. Era marcada pelos vermelhos e amarelos, mas, igualmente, pelo culto dos teóricos do Manifesto retratados em esculturas e em grandes cartazes. Cenas com trabalhadores e conquistas da Revolução eram motivo de constante produção plástica, sobretudo pintura e escultura. Até uma locomotiva podia ter um valor simbólico na Revolução.

Em 1972 estive em Moscovo e Leninegrado (2). Na capital impressionou-me o ritual da longa fila para visitar Lenine embalsamado no famoso Mausoléu junto ao Kremlin. Só noivos e delegações oficiais ultrapassavam aqueles que se alinhavam até à entrada. Esperei duas horas para ingressar na sala solene. Visitei o Museu da Revolução onde, pela primeira vez, vi uma película de cinema com Lenine. Imagens originais que, agora, estão aqui disponíveis (3).

Em Leninegrado revivi o itinerário dos revolucionários do Instituto Smolny ao Palácio de Inverno.

Em Portugal, o silêncio em redor deste “Novo Mundo” só era ultrapassado por quem podia sair e viajar. A partir de Paris, por exemplo, era fácil. Eram muitas as excursões organizadas a preços módicos para visitar a então URSS. Era parte da propaganda.
  
Tudo isto representava para os muitos jovens o sonho de uma Sociedade Nova constituída pelo Homem Novo.

Desde há muito, reconheço, porém, que a realidade não reflectiu aquele sonho inicial. Utopia.

O sistema político de um Estado tem, necessariamente, de assentar em valores e princípios democráticos indissociáveis da liberdade e de garantias individuais para todos os cidadãos. Justiça social. Humanismo.

Ora, não foi, como se sabe, o que aconteceu na ex-URSS de 1917. A queda do Muro era, portanto, inevitável. Sublinho inevitável.  

Lisboa, Fevereiro de 2011
Francisco George

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(1)  Refiro-me a Rui Moura, irmão de minha Mãe.
(2) Obtive autorização especial da PIDE para poder efectuar a viagem à URSS só depois do Director da Faculdade, Professor Cândido de Oliveira, ter subscrito uma declaração que assumia a responsabilidade pela minha deslocação e regresso.
(3) Reprodução devidamente autorizada por Costa do Castelo Filmes, LDA.